Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Jonasnuts

Quando morre alguém

Tenho este post atravessado há uns anos. Há tantos anos que eu ainda nem sequer tinha Blog. O atravessamento agravou-se aquando da morte do Miguel Portas, e agora o Bernardo Sassetti parece ter sido a gota de água.

 

Quando morre uma figura pública, acabou-se, para nós, que não lhe éramos próximos. Para nós comuns mortais, que não fazíamos parte do seu círculo de amigos, acabou-se o tempo de homenagem. Porque as homenagens ou manifestações de apreço só servem enquanto as pessoas estão vivas. Se morre um artista de cuja obra eu tenha sido apreciadora, é enquanto ele é vivo que eu manifesto o meu gosto. Seja comprando o que ele produz, seja assistindo aos seus espectáculos, seja, para os que têm mais lata e em se apresentando a ocasião, pedindo um autógrafo e, para os que tenham mesmo MUITA lata, abordando essa pessoa (atenção, não me refiro a stalkers), e dizendo-lhe "olhe, gosto muito do seu trabalho, obrigada".

 

Mas, no momento em que ele morre, acabou-se. Para mim. Apreciadora do trabalho. Já não há tempo para mais homenagens, a obra fica, mas o artista morreu, ali, naquele preciso momento em que o corpo deixou de funcionar, seja qual tenha sido a razão dessa paragem.

 

O momento a seguir não é para os fans ou apreciadores do artista/figura pública. O momento a seguir é para quem perdeu um pai, uma mãe, um filho, um amigo. A partir do momento em que essa pessoa morre, deixa de nos pertencer e passa a pertencer apenas aos que deles eram próximos, aos que dele gostaram, e teriam gostado, independentemente da profissão que tivesse escolhido.

 

O circo que se monta à volta da morte das figuras públicas é, para mim, odioso. E as pessoas que estão realmente a sofrer, ainda têm de arranjar forças para levar com o circo, quando a única coisa que querem é aguentar-se nas pernas, e já basta o que basta, não é preciso circo. O circo serve para deixar as pessoas mais exaustas, mais vazias. O circo é uma imposição que ninguém merece.

 

Em tempos tive um amigo que era uma figura pública muito conhecida e muito querida. Quando ele morreu, a família mais próxima era constituída por meia dúzia de pessoas. Pessoas que queriam chorar o marido, o pai, o padrasto, o amigo. Pessoas que tiveram de preparar uma cerimónia que queriam intima e discreta, numa das capelas laterais da Basílica da Estrela, e que de repente se viram na necessidade de mudar tudo, para que fosse na nave central, e contactar a polícia porque o trânsito estava interrompido, e que tiveram de se esmifrar para cumprir os desejos do morto (nestas coisas toda a gente tem opinião de como se deve fazer a coisa, e nós só queríamos cumprir as últimas vontades desse tal amigo). E tiveram ainda que passar horas e horas e horas em que apenas lhes apetecia chorar, a fazer sala, junto de perfeitos desconhecidos que repetiam, julgando-se originais, a mesma lengalenga "gostava muito do seu pai". Ad Eternum.

 

Uma figura pública, quando morre, deixa de ser nossa. Passa a ser só da família. Tudo o resto é circo cheio de palhaços. Pobres. De espírito.

2 comentários

  • Imagem de perfil

    jonasnuts 11.05.2012 19:03

    Eu percebo isso, de retirar força dos comentários daqueles que privaram com a pessoa. Se morre um amigo, vou ao funeral, mesmo que não conheça a família directa, e falo um bocadinho com os familiares, explico porque é que aquela pessoa foi importante para mim. Mas isso é conhecendo a pessoa. Não apenas a obra ou a parte mais pública da vida dessa pessoa.
  • Comentar:

    CorretorEmoji

    Comentar via SAPO Blogs

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

    Pesquisar

    No twitter


    Subscrever por e-mail

    A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2008
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2007
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2006
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D
    196. 2005
    197. J
    198. F
    199. M
    200. A
    201. M
    202. J
    203. J
    204. A
    205. S
    206. O
    207. N
    208. D